Pesquisa desenvolvida por jovem cientista propõe ferramenta inovadora de previsão de chuvas a partir da união de inteligência artificial e saberes populares do semiárido.
O cearense Raul Victor Magalhães Souza foi o grande vencedor da etapa nacional do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo 2026. O estudante venceu com o projeto “Desenvolvimento de uma ferramenta híbrida de aprendizado de máquina para previsão pluviométrica baseada nos saberes dos profetas da chuva e dados meteorológicos”. A cerimônia de premiação aconteceu no dia 1 de junho em solenidade realizada na Escola de Guerra Naval, no Rio de Janeiro. O trabalho foi orientado pelo professor Helyson Lucas Bezerra Braz.

Da esquerda para a direita: Maria Lusinaria Carvalho Magalhães (mãe do finalista), Raul Victor Magalhães Souza (vencedor da etapa nacional) e Helyson Lucas Bezerra Braz (orientador).
Quando a inteligência artificial encontra a sabedoria do sertão
A pesquisa chama atenção por unir dois mundos que, por décadas, foram tratados como opostos: a ciência de dados, com uso de algoritmos de aprendizado de máquina, e o conhecimento tradicional dos chamados profetas da chuva, figuras reconhecidas no semiárido nordestino por observarem sinais da natureza para prever períodos de chuva ou estiagem.
Em uma região marcada por escassez hídrica, chuvas incertas e por uma comunidade diretamente impactada pela seca, o projeto se destaca por propor uma solução de baixo custo, alta precisão e forte impacto social.
A ferramenta desenvolvida integra 44 anos de dados meteorológicos, entre 1981 e 2024, com mais de 40 mil registros, a indicadores tradicionais observados na fauna, na flora e na atmosfera. A partir dessa combinação, o modelo foi treinado para identificar padrões complexos e melhorar a previsão de chuvas de longo prazo no Vale do Jaguaribe, no Ceará.
Durante a validação experimental realizada na estação chuvosa de 2025, entre janeiro e março, o modelo estimou 422,1 mm de precipitação acumulada, enquanto o volume real observado foi de 431,5 mm. O erro médio mensal foi de apenas 5,7%. Em comparação, uma plataforma comercial de referência estimou 318 mm, com erro de 30,8%. O sistema também alcançou 94,5% de acurácia no desempenho de classificação.
Mais do que um resultado técnico expressivo, o projeto apresenta um diferencial simbólico e inovador: ele reconhece que a ciência do futuro pode e deve dialogar com os saberes das comunidades tradicionais. Ao transformar observações populares em dados estruturados e combiná-los com inteligência artificial, Raul propõe uma tecnologia social capaz de fortalecer a agricultura familiar, apoiar a gestão hídrica e ampliar a resiliência de comunidades vulneráveis às mudanças climáticas.
“Conquistar esse prêmio agora foi uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido comigo”. Raul conta que foram as histórias do avô sobre os profetas da chuva que o fizeram ter a ideia para a pesquisa. “Tenho que agradecer ao meu avô, minha principal referência e base para a construção do projeto”.

Raul Victor Magalhães Souza, vencedor da Etapa Nacional do Stockholm Junior Water Prize
Uma década valorizando a ciência feita por jovens
O evento nacional foi realizado na Escola de Guerra Naval, instituição da Marinha do Brasil que sediou a cerimônia de premiação da décima edição brasileira. A presença da instituição reforçou o caráter estratégico do debate sobre água, ciência, juventude e sustentabilidade para o futuro do país. “É uma satisfação imensa sermos anfitriões de um evento como esse. A água e a sustentabilidade fazem parte do nosso ‘ser’ aqui na marinha”, destaca o Vice-almirante José Cláudio Oliveira Macedo, diretor da Escola de Guerra Naval.
A edição também contou com o apoio de instituições comprometidas com o desenvolvimento sustentável e com a formação de jovens talentos. Entre elas, o Banco do Brasil, representado por sua Vice-Presidente de Negócios Digitais e Tecnologia do Banco do Brasil (BB) Marisa Reghini, reforçou a importância de investir em ciência, educação e inovação como caminhos para transformar realidades. “A ciência é o futuro do nosso país. Somos um país maravilhoso e temos que acreditar nisso”.
Em sua décima edição no Brasil, o Stockholm Junior Water Prize reforça seu papel como plataforma de transformação social, revelando talentos que usam a ciência para enfrentar problemas reais do país. A etapa brasileira é organizada pelos Jovens Profissionais do Saneamento, programa da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), em parceria com a Câmara de Comércio Brasil-Suécia (Brazilcham Sweden), mobilizando voluntários, instituições públicas, empresas, universidades e especialistas em torno de uma causa comum: estimular jovens cientistas a desenvolverem soluções para os desafios da água.
“O Stockholm Junior Water Prize reforça a importância de apoiar a ciência jovem como caminho para enfrentar os desafios cada vez mais urgentes, como a escassez hídrica e a resiliência climática”, diz representante da Xylem. Com um século de legado, a empresa global de tecnologias para águas acredita que a inovação e conhecimento aplicado têm papel central na construção de soluções concretas para o ciclo da água. “Em iniciativas assim, a tecnologia não é um fim em si mesma: ela é um meio para ampliar segurança hídrica, apoiar comunidades e transformar inovação em benefício concreto para a sociedade”.
Educação, pesquisa e compromisso social como motores da inovação
A vitória de Raul representa não apenas uma conquista individual, mas um símbolo da potência da juventude brasileira, especialmente quando educação, pesquisa e compromisso social caminham juntos. O projeto vencedor mostra que inovação não está apenas nos grandes laboratórios ou em tecnologias inacessíveis. Ela também nasce da escuta do território, da valorização da cultura local e da capacidade de jovens cientistas brasileiros enxergarem soluções onde muitos veem apenas desafios.
Uma companhia que enxerga os jovens como vetores de transformação e inovação é a CEDAE, Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. “A CEDAE dá muita importância para a capacitação dos jovens, entendemos que é deles que vem o futuro. Então, precisamos motivar e incentivar. Porque o futuro do saneamento ainda tem muito para crescer, e são os jovens que vão construir esse futuro”, diz Mayra de Castilho, gerente de Projetos Técnicos da CEDAE.
Do Ceará para o mundo: rumo à etapa internacional em Estocolmo
Agora, o estudante brasileiro seguirá para a etapa internacional do prêmio, que acontece em agosto, durante a Semana Mundial da Água, em Estocolmo, na Suécia. Antes disso, Raul também participará da votação popular internacional, oportunidade em que o público poderá conhecer e apoiar projetos desenvolvidos por jovens cientistas de diversos países.
Cerimônia de Premiação da Etapa Nacional do Stockholm Junior Water Prize, realizada na Escola de Guerra Naval (EGN) no Rio de Janeiro
“Apoiar esta iniciativa reforça nosso compromisso com a construção de um futuro mais sustentável, resiliente e inclusivo. Dar visibilidade ao talento destes jovens é, sem dúvida, contribuir para o desenvolvimento de soluções capazes de gerar impacto positivo para as pessoas e para o planeta”, destaca Patricia Acioli, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da Operação Industrial da Scania na América Latina.
A participação brasileira na etapa internacional reforça a relevância do país no debate global sobre água, clima e sustentabilidade. Em um momento em que o mundo busca soluções urgentes para os efeitos das mudanças climáticas, o projeto vencedor da etapa brasileira mostra que a juventude tem muito a contribuir com criatividade, rigor científico e profundo vínculo com as realidades locais.
