Últimas Notícias

Quarto dia do Brazil Water Week: quando o clima deixa de ser cenário e vira protagonista

Ao longo dos três primeiros dias, as mudanças climáticas apareceram como pano de fundo em quase todos os debates. Uma pressão constante sobre contratos, operações, tecnologias e diplomacias. No quarto dia, o clima saiu do fundo e ocupou o centro. A programação construiu uma linha coerente: primeiro, os impactos sobre quem já está mais exposto; depois, as respostas que a natureza pode oferecer; em seguida, como antecipar crises antes que se tornem irreversíveis; e, por fim, como financiar tudo isso em escala. Foi um dia de convergências entre o técnico e o político, entre o local e o global, entre o urgente e o estrutural. Confira!

O Impacto das Mudanças Climáticas na Prestação de Serviços de Saneamento em Áreas Vulneráveis e Ambientalmente Sensíveis

Filipinas, Quênia e Brasil dividiram o mesmo palco para mostrar que, apesar das distâncias, a vulnerabilidade climática no saneamento tem um rosto parecido em diferentes partes do mundo. John Emmanuel Martinez, da Maynilad Water Services de Manila, e Priscillah Githinji-Oluoch, da Malindi Water and Sewerage Company, no Quênia, trouxeram experiências de operadoras que já convivem cotidianamente com eventos extremos. Sérgio Antônio Gonçalves, diretor executivo da Aesbe, e Lincoln Muniz Alves, da Secretaria de Mudança do Clima, completaram o painel com a perspectiva brasileira — institucional e técnica. Moderada por Vanessa Britto, vice-presidente da ABES, a sessão deixou claro que adaptar a infraestrutura de saneamento ao clima não é uma escolha: é uma condição para manter o serviço funcionando onde ele mais importa.

Soluções Baseadas na Natureza e Proteção de Mananciais

Como a natureza pode ser aliada, e não apenas vítima,  da crise hídrica? A sessão reuniu Marie Ikemoto, subsecretária de Mudanças do Clima e Conservação da Biodiversidade do Rio de Janeiro, Aline Verol, da FAU/UFRJ, e Blanca Antizar, do University College London, para debater o papel das soluções baseadas na natureza na proteção de mananciais e na resiliência urbana. Moderada por Samuel Barrêto, do Hub de Desenvolvimento, a conversa avançou sobre como integrar infraestrutura verde ao planejamento do saneamento não como alternativa à engenharia convencional, mas como complemento essencial em territórios onde a lógica do concreto já mostrou seus limites.

BWW Connection

Fishermans Bend Framework: Uma Cidade Sensível à Água

O intervalo do meio-dia trouxe um exercício concreto de urbanismo hídrico. Vassiliki Boulomytis, do IFSP, e Todd Berry, responsável pelo design urbano do projeto em Melbourne, apresentaram o Fishermans Bend Framework – um dos maiores projetos de renovação urbana da Austrália, construído sobre o princípio de que uma cidade pode e deve ser projetada para conviver com a água, não apenas para afastá-la. O caso ofereceu referências práticas para cidades brasileiras que enfrentam o mesmo desafio de reconciliar expansão urbana e gestão hídrica.

Monitoramento e Alerta Precoce para Segurança da Água

Antecipar é mais barato do que remediar, e o setor hídrico ainda utiliza pouco essa premissa. Jorge Gonçalves, da LIS-Water de Lisboa, Eduardo Mario Mendiondo, da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, e Monica Porto, professora da USP e referência da ABES-SP, debateram sistemas de monitoramento e alerta precoce aplicados à segurança hídrica. A moderação foi de Carlo Renan Cáceres de Brites, da ABES-DF. A sessão evidenciou que a tecnologia de sensoriamento e modelagem já existe o que falta, em muitos casos, é a articulação institucional para transformar dados em decisões a tempo.

Financiamento Internacional e Mecanismos Multilaterais

O dia encerrou com uma sessão que conectou os debates anteriores a uma pergunta fundamental: quem paga? Luciene Ferreira Monteiro Machado, superintendente de Soluções para Cidades do BNDES, e Tiago Pena, especialista sênior em água e saneamento do BID, apresentaram os instrumentos disponíveis no âmbito das instituições multilaterais para financiar a agenda hídrica e de saneamento. Mzukisi Njotini, professor e decano da Faculdade de Direito da Universidade de Fort Hare e pós-doutor por Oxford, trouxe a dimensão jurídica e de direitos humanos ao debate. Moderada por Nelson Lima, da ABES-SP, a sessão encerrou o quarto dia reafirmando que a universalização do saneamento não é apenas uma meta técnica, é também uma questão de arquitetura financeira e de vontade política global.

O que vem por aí no último dia

O Brazil Water Week chega à sua última programação com uma agenda que vai da natureza à inovação, do campo ao subsolo. O dia abre com soluções baseadas na natureza aplicadas diretamente ao saneamento, seguido de uma sessão sobre inovação com foco em pessoas, legislação e ecossistemas com Ana Silvia Pereira, do Instituto Reúso de Água, entre os palestrantes. À tarde, o saneamento rural volta à pauta, desta vez com especialistas da rede global RWSN, da Funasa e da Cagece. O dia,  e o evento,  encerra com uma sessão dedicada à proteção de aquíferos e prevenção na fonte, moderada pela ANA. Uma despedida à altura da semana. Não Perca!